Despesas Inteligentes: Onde Cortar, Onde Investir

Despesas Inteligentes: Onde Cortar, Onde Investir

Em 2026, o Brasil enfrenta um momento decisivo: o governo federal estabeleceu a meta de zerar o déficit das contas públicas, enquanto a economia projeta crescimento modesto de 1,6% e inflação de 3,9%.

O dilema fiscal de 2026

O arco fiscal aprovado em 2023 limita o crescimento real das despesas a no máximo 2,5% ao ano, corrigidas pela inflação. Para este ano, a banda de crescimento permitida situa-se entre 0,6% e 2,5%, um intervalo apertado que exige escolhas contundentes.

Embora o orçamento preveja R$ 3,186 trilhões em receitas primárias e R$ 3,195 trilhões em despesas, o aumento de R$ 168 bilhões concentra-se em despesas obrigatórias, dos quais R$ 153,7 bilhões advêm de Previdência, funcionalismo e programas sociais.

Onde Cortar: otimizando despesas

Enfrentar a insustentabilidade do atual regime fiscal passa por reduzir gastos que pouco impactam serviços essenciais e direcionar recursos para áreas de maior retorno social.

  • Revisão de contratos administrativos: renegociar aluguéis, serviços de limpeza e tecnologia da informação.
  • Controle rigoroso de diárias e passagens: padronizar regras e eliminar deslocamentos desnecessários.
  • Redução de cargos comissionados: diminuir número de funções sem impacto no atendimento à população.
  • Fiscalização do uso de combustíveis e energia: implantar sistemas de monitoramento em tempo real.

Essas iniciativas podem liberar parte dos R$ 63 a 65 bilhões atualmente consumidos em custos fixos e administrativos.

Distribuição do aumento das despesas obrigatórias

Onde Investir: gerando valor para o futuro

Com margem real estimada em R$ 117 bilhões para gastos discricionários, é essencial priorizar projetos que promovam crescimento sustentável e ampliem a capacidade de investimento do governo.

  • Infraestrutura de transporte: estradas, ferrovias e hidrovias para reduzir custos logísticos e estimular o agronegócio.
  • Educação básica e técnica: elevar padrões de aprendizado e preparar mão de obra para a economia digital.
  • Saúde preventiva e tecnologia: modernizar hospitais e expandir programas de telemedicina.
  • Inovação e digitalização: apoiar startups, pesquisa em inteligência artificial e adoção de soluções governamentais online.

Esses investimentos, mesmo modestos em relação ao tamanho do PIB, podem multiplicar retornos em longo prazo e ajudar a convergir a inflação para o centro da meta.

Estratégias práticas para gestores públicos

Para implementar cortes e investimentos de forma coordenada, é fundamental adotar um plano que una análise de dados, participação de especialistas e transparência no acompanhamento dos resultados.

  • Diagnóstico detalhado: mapear todas as rubricas de despesas e avaliar impacto social e fiscal de cada linha.
  • Orçamento base zero: revisar periodicamente cada gasto, em vez de considerar apenas reajustes automáticos.
  • Comitê interministerial: reunir equipes de planejamento, finanças e controle para priorizar projetos e monitorar execução.

Esse modelo de governança estimula responsabilidade compartilhada e reduz riscos de desvios orçamentários.

Superando desafios estruturais

Ao longo da última década, a rigidez orçamentária e o crescimento acelerado das despesas obrigatórias reduziram drasticamente o espaço para investimentos, gerando déficits recorrentes e queda nos aportes em infraestrutura. A Instituição Fiscal Independente alerta para a necessidade de um ajuste estrutural profundo que vise superávits primários e ampliação dos investimentos.

Também é preciso corrigir a superestimação de receitas no planejamento, promovendo cenários realistas e conservadores para evitar surpresas no cumprimento da meta fiscal.

Conclusão: rumo a uma gestão sustentável

O equilíbrio entre cortes e investimentos não é apenas uma exigência legal, mas uma oportunidade de reestruturar o Estado brasileiro de forma a torná-lo mais eficiente e focado em resultados. Priorizar a qualidade dos gastos e direcionar recursos a projetos de alto impacto social e econômico fortalece a credibilidade fiscal e gera confiança em investidores e cidadãos.

Em 2026, o desafio é grande, mas a combinação de gestão baseada em evidências, participação colaborativa e foco em resultados pode transformar limitações orçamentárias em avanços concretos para o desenvolvimento do país.

Por Maryella Faratro

Maryella Faratro atua como autora no Impulsionei, desenvolvendo artigos voltados à educação financeira, disciplina econômica e crescimento financeiro consciente.